Estar entre

July 1, 2018

 

 

 

 

 

 

Victoria station

 

cotovelos sobre o braço da cadeira,

consulta o mínimo relógio de pulso: nove

 

e vinte. tem os cílios tremendo num cacoete

seguido e os letreiros piscando

regulam a chegada dos trens. o postal com um

urso branco dizia quarta-feira vs.

o ponto de encontro é cada vez mais distante,

você pode estar num quarto de hotel ou numa

estação, “chego sempre fora da hora”

                                                                     ele disse

que sabia, foram anos fugindo da chuva

– ficava na última cadeira contando os segundos

antes da partida. – essa é a única

maneira de estar entre

 

podia levantar num movimento perpétuo,

cabeça erguida e um postal: eis a senha.

(assim fugia a silhueta da mulher

de costas) a essa altura podia ser um silêncio

maquinal, mas o ruído na hora de dizer

mas os largos dedos apontando

tornavam qualquer fuga

impossível.

 

Marília Garcia

 

 

 

Começo pensando que, quem sabe, cada poema, cada livro, seja uma maneira de estar entre. Que, quem sabe, sua maneira de estar entre seja o que cada poema, cada livro, tem a nos dar. É possível que seja generalizar demais, mas talvez não, se pensarmos o estar entre como a vacilação que pode ser de qualquer um, a instabilidade de cada um, que pode vir a se tornar a vacilação de um verso, ao encontrar seu sentido depois de uma quebra, de um intervalo: “essa é a única/ maneira de estar entre”. Entre um verso e outro, o sentido se suspende e o poema abre um espaço para nós. Começo pensando que se esta, este livro, é minha maneira de estar entre, ela não é a única, embora tenha sido, até aqui, a que entendo como a mais decisiva, relacionada com uma história familiar e política, que decidiu uma vacilação constante – sim, uma constância na vacilação: estar entre Brasil e Argentina, entre o espanhol e o português. Uma fixação na vacilação. Só com essas expressões contraditórias é possível dar nome a uma identidade que se dá pela impossibilidade de se identificar. Este livro reúne textos que são a minha maneira de estar entre.

 

Vou ao índice para tentar me lembrar qual o texto mais antigo, sem ter certeza de se há alguma relevância nessa cronologia. “E a origem sempre se perde” é uma frase de Raúl Antelo que inspira este livro, que me permitiu escrever seu último texto – sim, disso tenho certeza, o último texto escrito foi “E a origem sempre se perde”, que coloquei no final. Mas sobre ele talvez possa falar depois. Por enquanto, tento me lembrar de qual escrevi primeiro. “A nova literatura russa” foi apresentado num colóquio em Buenos Aires, em 2009. Lembro do prazer que me deu na época as circunstâncias de sua leitura: eu falava em espanhol sobre um livro de Bernardo Carvalho passado na Rússia, O filho da mãe, acentuando com o título sua capacidade de criar uma experiência comum a partir de um deslocamento radical. Este livro teve em momentos diferentes de sua elaboração essa expressão, “experiência comum”, no seu título ou subtítulo. Afinal, então, pode ser relevante começar me referindo a esse texto para indicar, por um lado, que este livro foi escrito durante vários anos e, por outro, que ele orbitou em torno do desejo de uma experiência compartilhável, da literatura como uma experiência que pode criar lugares-comuns.

 

Penso que o romance de Bernardo Carvalho cria uma série, de escritos em trânsito, com os poemas de Beatriz Bastos e de Cecilia Pavón ou com o romance Azul-corvo de Adriana Lisboa, que serão matéria de trabalho aqui também. Identifico nos textos sobre eles a busca por um espaço de leitura e de criação, mediada por termos como “cosmopolitismo”, “realismo”, “comunidade”, “margem”, procurando dialogar, e frequentemente polemizar, com um debate contemporâneo sobre as condições de resistência da literatura no mundo de hoje, condições essas que são consideradas a partir das formas mesmas, sem que isso signifique uma autonomia delas, já que são lidas como parte dos movimentos da vida, de seus deslocamentos, de sua precariedade, de seus afetos, do amor, da guerra, do exílio. Essa resistência, enquanto força, na qual ainda se aposta, do literário, está plasmada na língua e nos seus usos. É nesse sentido que se enfatiza no texto sobre os primeiros livros de Sergio Chejfec e Roberto Raschella, filhos de imigrantes, a necessidade, para começar, de criar uma língua feita com os restos da língua de outro. Esse significante, “resto”, volta e volta, obsessivamente: o que restou? o que vai restar? Restos de memória, de sabores, de gestos. Corpos no fundo do mar.

 

Essa obsessão percorre o livro, ao longo das duas partes, “Escrever a leitura” e “Entrelínguas, entrelugares”. “Vale o que se pode escrever a partir do que sobrou” – essa frase que aparece no texto sobre Sylvia Molloy resume uma postura do livro. Diante do que desapareceu, do que se foi, a literatura aparece como possibilidade não de recuperação, de restauração, mas de fazer algo com os restos, como em K. Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, ou Diario de una princesa montonera, de Mariana Eva Perez ou, ainda, nas cartas que Rodolfo Walsh escreve antes de ser sequestrado pela ditadura militar. A literatura é assim entendida como prática, como trabalho, ação de catar, juntar, montar restos sobreviventes. As leituras aparecem como um material privilegiado nessas ações: escritores como Silviano Santiago, Ricardo Piglia, Martín Kohan, Daniel Link e Sylvia Molloy escrevem com sobras de leituras, o que tem como consequência, também, uma indistinção entre uma escrita crítica e uma escrita ficcional. É por aí que transitam os textos ao quais fui me aproximando, da leitura para a escrita, e vice-versa, em percursos que se explicitam, narrando-se caminhos e desvios, de modo que o texto se prepara ao mesmo tempo em que se torna o que o leitor tem entre as mãos.

Narrar um percurso em que a origem pode se perder é o que faz o texto que encerra este livro, com a imagem de um voo atravessando o continente americano, de Los Angeles a Buenos Aires, que tomo emprestada do romance Avión, de Eduardo Muslip. A imagem de um avião suspenso no ar, entre duas pontas – de um intervalo de tempo em que é possível começar a escrever, porque já se partiu, sem ter chegado ainda a outro lugar.

 

(Apresentação do livro de ensaios Estar entre - ensaios de literaturas em trânsito, a ser publicado pelas editoras Grumo e Papéis selvagens, em 2019)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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